A manhã esplendia em júbilos. Havia um festival de sol, cor e música em a natureza. Pairava no leve ar do alvorecer o suave perfume das flores miúdas encravadas nas íngremes encostas do monte.
Há poucos minutos eles tiveram ali a visão excelsa e o contato com o MundoTranscendente.
Seu Rabi apresentara-se rutilante ao lado dos pais da raça. Na grandeza eloquente da
cena, a figura do Mestre se apresentara revestida de incomparável beleza. Nunca
antes Ele se reportara às Suas reais possibilidades...
Apagava-se na multidão, embora o destaque natural que O elevava
além e acima de todos.
Já afirmara as Suas qualidades de Esperado, todavia, como crê-lo
ou como duvidá- lo?! Os Seus atos atestavam a elevação e procedência da estirpe
a que pertencia.
Israel, no entanto, apresentava profetas e emissários de Deus,
frequentemente, e muitos deles não passavam de possessos ou desequilibrados que
o ridículo enxotava das portas.
Onde, porém, n'Ele as características habituais do profeta
clássico? Nem o olhar injetado, nem a boca contraída em ricto, nem cólera
divina a extravasar na palavra sibilina e dura. Nem ameaças, nem premonições.
Falava docemente, emoldurando seus conceitos com as palavras
simples de todas as bocas, faladas pela singeleza do povo, por todos
entendidas.
Ensinava o amor como solução única para os graves problemas e isto
O fazia diferente. Perseguido, e não poucas vezes humilhado, prosseguia dócil.
Nunca arrazoava contra e jamais se inquietava com as misérias dos homens.
Misturava-se à turba e nunca se igualava...
Era comum e, no entanto, era especial.
Não amado ou não compreendido, continuava impertérrito no
ministério do Seu amor, lecionando bondade e aguardando os resultados que
comprovassem nos ouvintes a excelência das suas assertivas.
Compreendiam-n'O agora e estavam deslumbrados. Suas carnes ainda
estremeciam ante o impacto da emoção que os assaltara no colóquio da
transfiguração que acabaram de ver.
Desciam a montanha e a música do ar cantava uma balada agradável
aos seus ouvidos como a fixar-lhes na memória todas as realidades daquele
momento.
— Não digais nada a ninguém — falou, inesperadamente, o Senhor —
do que acabais de presenciar, até que eu haja partido e ressurja dentre os
mortos (*).
Não era a primeira vez que Ele se referia à partida e acenava com
o próprio sacrifício para a consolidação dos Seus ensinos, e a informação lhes
soava amarga, afligente... Preocupavam-se, pois que O amavam. O testemunho dado
por Ele, por outro lado, exigir-lhes-ia igualmente o atestado de fidelidade, e
receavam não estar preparados...
— Rabi, não será necessário — disse Simão — que venha primeiro
Elias, conforme ensinam os escribas, para que depois venha o Messias?
A interrogação que mentalizavam de há algum tempo, escorrera-lhe
dos lábios naturalmente, naquele momento.
Elias fazia parte da vida espiritual de Israel.
Sua voz penetrava através dos tempos a alma do povo eleito. Aquele verbo flamívono
chibateara a idolatria no passado e a sua eloquência, inspirada por Deus,
fizera-o anunciar o Esperado libertador, que um dia faria de Israel o povo
superior da
Terra.
Previra, também, o seu próprio retorno para apontar Aquele que
seria o Embaixador
Excelso de Deus. Esperava-se que Ele chegasse, fazia muito, mas
Elias não retornara...
Todos recordavam as batalhas travadas contra os adoradores de
Baal, nas margens do rio Kinzon, implantando no seio dos bárbaros "o culto do
Deus Único". Elias era, pois, o ponto de partida, a chave decifradora do grande
enigma.
— Sim — respondeu Ele de olhar fulgurante —, o Elias que havia de
vir já veio, mas não o reconheceram, fazendo-o experimentar tudo quanto
quiseram...
Assim, também, padecerá o Filho do Homem...
Repassaram mentalmente os últimos acontecimentos, os homens
ilustres da Pátria, mas não o identificavam.
Amargavam duro cativeiro nas garras romanas e a miséria lhes
rondava as portas.
Havia rebeliões afogadas em sangue e os espiões do dominador,
aliciados a peso de ouro, estavam presentes em toda parte.
Por que não se escutava o Profeta invectivando, encorajando o povo
a arrojar dos ombros ao solo os pesados grilhões da escravidão? Necessitavam de
quem os liderasse. . .
Enquanto conjecturavam, na mesma harmoniosa voz, Êle concluiu:
— É este que aí está...
Compreenderam que Ele se referira a João Batista.
Sim, João morrera, havia pouco, fora assassinado por Herodes e um
manto de torpe tristeza ainda os envolvia, dominando os discípulos do Batista,
agora dispersos.
Sim, ele bradara contra o crime e proclamara a chegada daquele de
Quem ele não era digno de sacudir o pó das sandálias.
Fora sacrificado por não concordar com as altas arbitrariedades
praticadas por
Herodes em pleno concubinato com a cunhada. Sua voz se erguera,
vigorosa, contra o abuso do poder e anunciava a nova era.
Recorria à penitência, ao arrependimento, elucidando chegados os
dias do Senhor..
...E era Elias!
Não havia dúvidas, agora que foram informados.
Por essa razão, Elias reaparecera na visão de há pouco, em toda a
sua grandeza.
João morto ressurgia em Elias espiritual, vivo.
Decifravam-se os enigmas e tornava-se mais fácil entender os
desígnios do Alto.
Ele era sem dúvida, na sua magnitude, o Esperado.
Fitaram-n'O quase a medo, e ante o olhar fulgurante de Jesus, a
refletir a manhã clara, descendo a montanha do colóquio com a verdade, na
direção dos homens, havia tal tranquilidade que eles se entreolharam em júbilos
e seguiram para baixo, para as lutas humanas, retendo aqueles segredos até a
hora própria de desvelá-los.
Elias chegara e partira. . .
Começava, agora, o Reino de Jesus, em sementes de luz e amor
atiradas na direção do mundo todo e da Humanidade inteira.
A sinfonia da Boa Nova cantaria nos ouvidos do coração uma sonata
de vida eterna.
A manhã continuava esplendente e Jesus descia para aplacar as
aflições humanas nas baixadas das paixões...
Nota da Autora espiritual.
(Luz no Mundo - Cap. 16 - Divaldo/Amélia Rodrigues)
